sábado, 16 de maio de 2009

O HOMEM DE ORELHA VERDE

Cada vez mais me convenço de que nossa criança não nos abandona, pois de uma forma ou outra, a partir de uma teoria ou outra, somos outros, mas somos muito do que fomos e vivemos e do que nos fizeram viver e ser, do que nos atribuíram como vivido e sentido. Mais do que um momento situado no tempo cronológico, a memória infantil da qual falo, é aquela que se permite a novidade, o não dito ainda, o que está por vir, aquilo que ainda não tem forma definida. Assim, sem ter exatamente um atributo, o pensamento, a memória infante é “verdinha” como a orelha de Gianni Rodari, para poder ouvir os passarinhos... Preciso que leiam esse poema:


O HOMEM DA ORELHA VERDE
Gianni Rodari
Um dia num campo de ovelhas
Vi um homem de verdes orelhas
Ele era bem velho, bastante idade tinha.
Só sua orelha ficava verdinha
Sentei-me então a seu lado
A fim de ver melhor, com cuidado.
Senhor, desculpe minha ousadia, mas na sua idade.
de uma orelha tão verde, qual a utilidade?
Ele me disse, já sou velho, mas veja que coisa linda.
De um menininho tenho a orelha ainda
É uma orelha-criança que me ajuda a compreender
O que os grandes não querem mais entender
Ouço a voz de pedras e passarinhos
Nuvens passando, cascatas e riachinhos
Das conversas de crianças, obscuras ao adulto.
Compreendo sem dificuldade o sentido oculto
Foi o que disse o homem de verdes orelhas
Me disse no campo de ovelhas.