"Este texto coloca em discussão as diversas conceituações de criança e de infância e aponta para a necessidade de uma nova concepção de inFãncia como um “fenômeno híbrido”. As mudanças da sociedade em todos os setores, especialmente
marcadas pela globalização indicam “rupturas sociais” e, neste contexto, a criança deve ser considerada não apenas como um ser biológico, cronológico. A infância se constitui numa condição de sermos humanos, como possibilidade de inovação, de
novidade, de criação, de experiência e historicidade que pervade todas as idades da vida."
Palavras-chave: Infância(s). Infância-experiência. Infância-protagonismo social. Infância-estética.
Esse texto foi escrito por mim e teve uma participação do Redin. Quem quiser lê-lo integralmente, acesse o link.
Entrando pela janela
domingo, 15 de novembro de 2009
MEMÓRIAS DE INFÂNCIA E DE ESCOLA: EXPERIÊNCIA E CRIAÇÃO.
"O artigo apresenta alguns resultados de uma pesquisa que explora a relação entre as infâncias escolarizadas e a estética. Tem como principal foco memórias de infância de um grupo de jovens, ex-alunos de uma escola que tem na sua proposta, a arte como paradigma principal. Utilizando uma “etnografia no meio virtual” (AMARAL, 2007), mensagens postadas numa comunidade do Orkut desencadearam outras buscas como a criação de um FOTOLOG. Neste espaço virtual, foram disponibilizadas fotografias da escola foco da pesquisa, na década de 80, envolvendo os sujeitos. Este texto focaliza os processos de criação e a estética como possibilidade de “estesia ou anestesia”, presentes nas memórias desses sujeitos da pesquisa. Reflete também sobre os tempos e espaços de algumas escolas infantis, suas rotinas escolarizantes, que se afastam da infância como condição de novidade e invenção. Os aportes teóricos são entre outros, Benjaminianos e Bachelarianos."
Este é o resumo da minha Tese de Doutorado. Para quem quiser ler mais sobre o artigo apresentado na Anped-Sul de 2007, acesse este link.
sábado, 16 de maio de 2009
GUARDADOS REVISITADOS PELA MEMÓRIA
No fundo, talvez queira olhar para trás e reconstituir outros pedaços da vida, talvez pedaços perdidos, cheios de imagens, dúvidas. Talvez queira ousar e me lançar à frente, correndo antes do tempo, projetando sonhos, fantasias, utopias. Memórias remetem a imagens que por sua vez, chamam histórias. Realidade?
BRINCAR DE LEMBRAR, LEMBRAR DE BRINCAR
"Os papagaios vão pelos ares até onde os meninos de outrora
(muito de outrora!...) não acreditavam que se pudesse chegar tão simplesmente, com um fio de linha e um pouco de vento!"
Cecília Meireles
Com agulha, fios, linhas, botões um pedaço de pano e um pouco de imaginação, recomponho uma cena de meio século atrás. Autorizo a minha memória e ela também me autoriza. Eis que surge o primeiro cenário (Marita 2006, bordado criador).
CANTIGA QUASE DE RODA
Thiago de Mello-
Na roda do mundo
lá vai o menino.
O mundo é tão grande
e os homens tão sós.
De pena, o menino
começa a cantar.
(cantigas afastam as coisas escuras.)
Mãos dadas os homens,
lá vai o menino,
na roda da vida
rodando e cantando.
A seu lado, há muitos
que cantam também:
cantigas de escárnio
e de maldizer.
Mas como ele sabe
que os homens, embora se façam de fortes,
se façam de grandes,
no fundo carecem de
aurora e de infância
– então ele canta
cantigas de roda
e às vezes inventa
algumas – mas sempre
de amor ou de amigo.
Cantigas que tornem
a vida mais doce
e mais brando o peso
das sombras que o tempo derrama, derrama
na fronte dos homens.
Na roda do mundo
lá vai o menino,
rodando e cantando
seu canto de infância.
Mas lá nas funduras
do peito, outro canto
lhe nasce e ressoa
- erguido de assombros
e de escuridões.
Vazio de infância,
varado de dores,
é o canto mais triste
que as noites já ouviram.
Portanto o menino
não deixa que o mundo
lhe escute esse canto
doloroso e inútil.
Pois sabe que os homens
embora se façam
de graves, de fortes,
no fundo carecem
de claras cantigas
- senão ficam ocos,
senão endoidecem.
E então ele segue
cantando de bosques
de rosas e de anjos,
de anéis e de cirandas,
de nuvens e pássaros,
de sanchas senhoras
cobertas de prata,
de barcas celestes
caídas no mar.
Na roda do mundo,
mãos dadas aos homens,
rodando e cantando
cantigas que façam
o mundo mais manso,
cantigas que façam
a vida mais doce
cantigas que façam
os homens mais crianças.
O canto desse menino
talvez tenha sido em vão.
Mas ele fez o que pôde.
Fez sobretudo o que sempre
lhe mandava o coração
lá vai o menino.
O mundo é tão grande
e os homens tão sós.
De pena, o menino
começa a cantar.
(cantigas afastam as coisas escuras.)
Mãos dadas os homens,
lá vai o menino,
na roda da vida
rodando e cantando.
A seu lado, há muitos
que cantam também:
cantigas de escárnio
e de maldizer.
Mas como ele sabe
que os homens, embora se façam de fortes,
se façam de grandes,
no fundo carecem de
aurora e de infância
– então ele canta
cantigas de roda
e às vezes inventa
algumas – mas sempre
de amor ou de amigo.
Cantigas que tornem
a vida mais doce
e mais brando o peso
das sombras que o tempo derrama, derrama
na fronte dos homens.
Na roda do mundo
lá vai o menino,
rodando e cantando
seu canto de infância.
Mas lá nas funduras
do peito, outro canto
lhe nasce e ressoa
- erguido de assombros
e de escuridões.
Vazio de infância,
varado de dores,
é o canto mais triste
que as noites já ouviram.
Portanto o menino
não deixa que o mundo
lhe escute esse canto
doloroso e inútil.
Pois sabe que os homens
embora se façam
de graves, de fortes,
no fundo carecem
de claras cantigas
- senão ficam ocos,
senão endoidecem.
E então ele segue
cantando de bosques
de rosas e de anjos,
de anéis e de cirandas,
de nuvens e pássaros,
de sanchas senhoras
cobertas de prata,
de barcas celestes
caídas no mar.
Na roda do mundo,
mãos dadas aos homens,
rodando e cantando
cantigas que façam
o mundo mais manso,
cantigas que façam
a vida mais doce
cantigas que façam
os homens mais crianças.
O canto desse menino
talvez tenha sido em vão.
Mas ele fez o que pôde.
Fez sobretudo o que sempre
lhe mandava o coração
DE MEMÓRIAS E CRIAÇÃO..
A memória como possibilidades de reinventar esse infantil, mas não qualquer memória e sim o “infantil” da memória, o que perdura como foco de criação e que ajuda a movimentar tanto o conceito de infância, como o próprio que -fazer da educação.
AINDA SOBRE MEMÓRIA
Esse tipo de memória ( de infância1) fica por toda a vida, não envelhece, não amadurece, e também não consegue reter o curso da água. Fica o tempo todo inventando coisas para colocar nos vazios, por mais que eles nunca encham, mesmo que transbordem. É de natureza brincante, inventadeira, como as crianças. É uma memória criança! É a "precisão" ( nescessidade) de infância!
FALANDO DE MEMÓRIAS E DE INFÂNCIA
Mas a memória é também multicolorida, multiforme porque feita de várias coisas ao mesmo tempo. É também escorregadia, esburacada, deixa passar algumas coisas, mas não todas. Parece que vai reter voluntariamente o que quer, mas deixa escapar o que não queria, cheia de despropósitos e peraltagens, de infinitos e vazios, como a história de um menino que carregava água na peneira do poeta Manoel de Barros:
A mãe disse que carregar água na peneira,
Era o mesmo que roubar um vento
E sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que
Catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
Gostava mais do vazio
Do que o cheio.
Falava que os vazios são maiores
E até infinitos.
Com o tempo aquele menino,
Que era cismado e esquisito,
Porque gostava de carregar água na peneira,
Com o tempo descobriu que escrever seria
O mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
Que era capaz de ser
Noviça, monge ou mendigo
Ao mesmo tempo
O menino aprendeu a usar as palavras
Viu que podia fazer peraltagens com as palavra
E começou a fazer peraltagens
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
Botando ponto no final da frase.
Foi capaz de modificar a tarde
Botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura
A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas
PERALTAGENS
E algumas pessoas
Vão te amar por seus DESPROPÓSITOS
A mãe disse que carregar água na peneira,
Era o mesmo que roubar um vento
E sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que
Catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
Gostava mais do vazio
Do que o cheio.
Falava que os vazios são maiores
E até infinitos.
Com o tempo aquele menino,
Que era cismado e esquisito,
Porque gostava de carregar água na peneira,
Com o tempo descobriu que escrever seria
O mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
Que era capaz de ser
Noviça, monge ou mendigo
Ao mesmo tempo
O menino aprendeu a usar as palavras
Viu que podia fazer peraltagens com as palavra
E começou a fazer peraltagens
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
Botando ponto no final da frase.
Foi capaz de modificar a tarde
Botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura
A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas
PERALTAGENS
E algumas pessoas
Vão te amar por seus DESPROPÓSITOS
O HOMEM DE ORELHA VERDE
Cada vez mais me convenço de que nossa criança não nos abandona, pois de uma forma ou outra, a partir de uma teoria ou outra, somos outros, mas somos muito do que fomos e vivemos e do que nos fizeram viver e ser, do que nos atribuíram como vivido e sentido. Mais do que um momento situado no tempo cronológico, a memória infantil da qual falo, é aquela que se permite a novidade, o não dito ainda, o que está por vir, aquilo que ainda não tem forma definida. Assim, sem ter exatamente um atributo, o pensamento, a memória infante é “verdinha” como a orelha de Gianni Rodari, para poder ouvir os passarinhos... Preciso que leiam esse poema:
O HOMEM DA ORELHA VERDE
Gianni Rodari
Um dia num campo de ovelhas
Vi um homem de verdes orelhas
Ele era bem velho, bastante idade tinha.
Só sua orelha ficava verdinha
Sentei-me então a seu lado
A fim de ver melhor, com cuidado.
Senhor, desculpe minha ousadia, mas na sua idade.
de uma orelha tão verde, qual a utilidade?
Ele me disse, já sou velho, mas veja que coisa linda.
De um menininho tenho a orelha ainda
É uma orelha-criança que me ajuda a compreender
O que os grandes não querem mais entender
Ouço a voz de pedras e passarinhos
Nuvens passando, cascatas e riachinhos
Das conversas de crianças, obscuras ao adulto.
Compreendo sem dificuldade o sentido oculto
Foi o que disse o homem de verdes orelhas
Me disse no campo de ovelhas.
Gianni Rodari
Um dia num campo de ovelhas
Vi um homem de verdes orelhas
Ele era bem velho, bastante idade tinha.
Só sua orelha ficava verdinha
Sentei-me então a seu lado
A fim de ver melhor, com cuidado.
Senhor, desculpe minha ousadia, mas na sua idade.
de uma orelha tão verde, qual a utilidade?
Ele me disse, já sou velho, mas veja que coisa linda.
De um menininho tenho a orelha ainda
É uma orelha-criança que me ajuda a compreender
O que os grandes não querem mais entender
Ouço a voz de pedras e passarinhos
Nuvens passando, cascatas e riachinhos
Das conversas de crianças, obscuras ao adulto.
Compreendo sem dificuldade o sentido oculto
Foi o que disse o homem de verdes orelhas
Me disse no campo de ovelhas.
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